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Estudantes indígenas sofrem ataques racistas nos jogos escolares: 'Vai fazer farinha'

Durante a disputa pelo terceiro lugar, alunos da EEI Índio Gustavo Alfredo pedem respeito — Foto: Arquivo Pessoal


Estudantes de escolas indígenas que participaram da 50ª edição dos Jogos Escolares de Roraima foram vítimas de ataques racistas durante algumas partidas em Boa Vista. Foi o que relataram ao g1 dois professores que acompanham as equipes nas disputas na capital.

Promovido pelo governo do estado, por meio da Secretaria Estadual de Educação (Seed), os Jogos Escolares ocorrem na capital após seletivas nas escolas da capital e interior. Os vencedores vão para a etapa nacional.

Os ataques, segundo relatos dos professores, ocorreram durante as semifinais masculinas na categoria futebol. Durante a competição, os professores afirmam ter escutado das torcidas frases como "Vai fazer farinha" e "volta pra tua comunidade caboco".

Em nota, a Seed chamou os ataques de "episódio isolado" e lamentou o ocorrido. "A Secretaria de Educação e Desporto do Estado de Roraima repudia toda e qualquer forma de discriminação e lamenta o episódio isolado, ocorrido entre alunos-atletas durante os Jogos Escolares de Roraima."

Professores que acompanhavam os alunos de escolas indígenas, denunciaram atos racistas vindo de torcida de escolas rivais, durante as semifinais do futebol masculino infantil dos 50°Jogos Escolares do Estado de Roraima. Durante a competição, os professores escutaram frases como "Vai fazer farinha" e "volta pra tua comunidade caboco".

Em nota, a Secretaria de Educação e Desporto do Estado de Roraima (SEED) disse que "repudia toda e qualquer forma de discriminação e lamenta o episódio isolado, ocorrido entre alunos-atletas durante os Jogos Escolares de Roraima."

Relatos

Um dos episódios relatados foi no último dia 23 de julho, em um jogo de futebol da escola estadual Indígena Índio Gustavo Alfredo, localizada na comunidade Araça da Serra, em Normandia, contra a escola Monteiro Lobato, de Boa Vista - que reúne alunos com idades entre 15 a 17 anos. A disputa estava nos pênaltis da semifinal.

Em entrevista ao g1, a professora de educação física, Hellen Marques, que é indígena Taurepang, e treinadora dos aluno da escola estadual Índio Gustavo Alfredo, disse que ouviu gritos racistas vindo da torcida rival. O jogo ocorria no estádio Canarinho.

"Na hora dos pênaltis, como eu fico lá embaixo, perto do campo, comecei a ouvir algumas pessoas falando "vai fazer farinha", "lugar de índio não é aqui". Olhei para cima e, como eu estava longe, não tinha como reconhecer a pessoa que estava gritando", relatou a professora.

A professora disse que reportou o caso para a arbitragem do jogo, mas foi informada que eles só poderiam fazer algo se ela soubesse dizer exatamente quem havia gritado. Ela também disse que não viu nada sobre os ataques citados na súmula do jogo.

Hellen lamentou o episódio e pediu que os alunos das escolas indígenas sejam respeitados, principalmente por terem viajado do interior e chegar nas semifinais da disputa.

"Sabemos da vasta diversidade cultural que povoa a sociedade e toda heterogeneidade que compõem as escolas, portanto devemos respeitar as diferenças dos estudantes", disse.

No jogo seguinte, na disputa pelo terceiro lugar na categoria, o time de alunos da escola estadual Indígena Índio Gustavo Alfredo entraram no campo com placas pedindo por respeito.

Este não foi o único caso de racismo contra os alunos indígenas no campeonato. O professor de educação física Moyses Lima, que estava com os alunos da escola estadual Joaquim Nabuco, localizado no município de Uiramutã, contou ao g1 que acompanhava o time durante o jogo das semifinais de futebol masculino contra a escola estadual Aldebaro Alcântara, de Bonfim, quando também ouviu gritos racistas da torcida. O jogo aconteceu no dia 31 de julho.

Moyses Lima contou que durante o confronto, algumas pessoas que estavam na torcida começaram a gritar "volta pra tua comunidade caboco". Ele não conseguiu identificar os autores do ataque.

"Eles começaram a gritar "volta para casa, volta para tua comunidade caboco". Eu fiquei chateado"m disse ele, acrescentando que "não ligou muito", para que isso não refletisse no time. "Se eu deixasse abalar, ia demonstrar para o time", contou.

O professor também testemunhou os gritos racistas durante o confronto da escola Índio Gustavo Alfredo contra a escola Aldebaro Alcântara em outro jogo onde a disputa era pelo terceiro lugar.

"A gente tinha acabado de chegar quando um torcedor do Monteiro Lobato gritou "tira esse caboco daí, ele não aguenta nada não", com um tom de racismo. Todo mundo olhou com uma cara brava pra ele, então ele percebeu e se retirou de lá", relatou.

Este ano, a 50ª edição dos Jogos Escolares teve quatro fases regionais, entre os dias 22 de maio a 23 de junho. A fase final aconteceu entre os dias 29 de julho a 7 de agosto, em Boa Vista. Ao todo, 3.077 alunos-atletas - entre capital e interior, disputaram as primeiras colocações em 10 modalidades, além de garantirem vagas nas etapas nacionais.


Punições aos atos racistas

Reunião entre secretário de Educação e gestores para tratar de atos racistas nos Jogos Escolares de 2023 em Roraima — Foto: Reprodução/Instagram/Seed

Com a repercussão dos ataques racistas aos alunos indígenas, a Secretaria de Educação se reuniu com 58 gestores da rede estadual de ensino e decidiu punir qualquer delegação ou torcida envolvida em atos racistas durante as disputas. A medida foi publicada no Instagram da Seed.

Foi decidido que escolas envolvidas em atos ofensivos e que não respeitarem o fair play estão desclassificadas da 50ª edição dos Jogos Escolares e não poderão participar da edição de 2024.

De acordo com a Seed, as denúncias recebidas serão investigadas e os autores serão responsabilizados.

O Conselho Indígena de Roraima (CIR) foi procurado pelo g1, mas não disse que medidas deve adotar sobre os ataques racistas. Nas redes sociais, a organização disse que "é notável que o nível de ensino nas escolas públicas está precário, principalmente quando não há conhecimento sobre a diversidade cultural, e nem ao menos respeito. Todo apoio aos nossos estudantes indígenas, originários desse Estado e do Brasil."

Fonte: G1

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